O Acrobata Embriagado

A Montanha De Flamas

Dezembro 2, 2009 · Deixe um comentário

A Montanha de Flamas

A montanha cheia de velas acesas aguarda o abraço das correntes de ar desfilando eternidade: algumas vidas são derretidas por inteiro, outras ficam pela metade. Próximo do topo estão acesas poucas, na base persiste a boca incendiária.

Depois do corpo apagado o que escapa? A cera rende mais vigor à montanha, a fumaça é tragada mansamente, o fogo é reaceso noutro cenário.

Eclodimos na crosta da montanha como espirais de pavios vacilantes. Estamos acesos sobre o corpo derretido das nossas próprias reminiscências, cera consumindo cera, vida acesa sobre vida, pavio queimando em ciclos sem fim.

Gostaria de saber sobre qual montume de cera minha vela, agora, está acesa.

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Livro Reminiscências – Willy Barp

Novembro 23, 2009 · 2 Comentários

Reminiscências:

Willy Barp, pessoa que tive o prazer de conhecer através do blog Pena Negra, recentemente trouxe a sua obra Reminiscências para a apreciação pública. O livro traz uma série de textos em prosa e poesia sobre cativantes temáticas que tocam o universal e, pela peculiaridade das letras de Barp, merece toda a atenção.

Em breve farei questão de resenhar e destacar os aspectos que mais me empolgaram na sua obra. Por ora, deixo o link para que os interessados aproveitem a leitura: http://www.4shared.com/file/157888406/b9246813/Reminiscncias.html

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A Lâmina Fatigada (e as três partes e meia)

Novembro 17, 2009 · 1 Comentário

Lâmina Fatigada

A lâmina fatigada adormece sobre a mesa. Os acordes quebrados de uma voz inquisidora ainda ressoam pelos cantos da casa. Meu corpo desacordado sobre digitais em branco é a única testemunha do carcereiro dos sonhos.

Lá fora

Quando o vento rufando seus braços infinitos bateu nas janelas e portas da casa, todos já sabiam que o desfile dos seus ecos arlequinos não era signo do acaso. Todos quem? É isso o que você me pergunta? Todos, meu caro. As faces encravadas sob a minha retina, as vozes consumidas pelos pulmões prematuramente queimados enquanto dormiam, os passos atrofiados sob meus lençóis do meio-dia.

Aonde estou?

Não faço idéia alguma de onde estou. Estou em casa, estou num quarto, estou no grito roto da contradição ou em algum outro dilema disfarçadamente resolvido. Quem sou? Sou o ausente do qual se suspeita na chuva da tarde de verão, as teclas do piano empoeirado atrás da última parede, o choro do infante morto que ninguém ouviu, nem leu, nem se importou, mas que ainda assim continua ecoando. Sou fruto da genealogia espalhada nos cânticos folclóricos, da remota primeira fresta aberta sobre o velho rio sem fundo, do início que se engoliu logo no início de sua existência sem início.

O carcereiro

Hoje quando o meu corpo foi nocauteado estava mais uma vez levantando da minha cama em direção a rua. Uma lâmina, subitamente, foi cravada no meio das minhas costelas, atravessou o meu corpo e continou seu percurso de mutilação rua afora. Minha dor lancinante, minha língua paralisada dentro da boca e meus braços inertes arrastando mãos a espreitarem os passos cambaleantes, não foram suficientes para satisfazer a morbidez do carcereiro e ele continuou sua tentativa de rasgar as minhas falas jogadas contra o espelho, engolir os quartos da minha casa e cobrir de entulhos as frestas das minhas portas.

***

Com um disfarçado sorriso de canto de boca, sabia que a sua dose de sadismo logo teria fim. O cárcere que reside nos pés do carcereiro o torna, a cada passo, mais debilitado. Destino de carcereiro é ser faca cega, detém tanta empáfia na mutilação alheia que esquece de seu gume, cada vez mais engolido pelas marés de sonhos da noite humana.

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Página Em Branco

Novembro 7, 2009 · 3 Comentários

Página em branco é sutil respiração de ecos, querendo ser revividos. Andarilho adormecido em estrada sem chão. Chão estendido sobre boca sem voz. Voz de escritor nunca escrita por inteiro.

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Noturno nº 1 em Sol Maior

Outubro 27, 2009 · 3 Comentários

Os ponteiros do relógio se abraçaram

a noite gozou sob os seus sussurros amorosos

os ecos se soltaram das cavernas

os grilos cessaram

seus violinos cerrados

as portas esfomeadas

engoliram paredes

e o silêncio, satisfeito

atirou-se sobre o nada

quando o meu pulso

em êxtase

penetrou em minha outra imagem

desfilante

de linhas desencontradas.

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Flashes de absinto

Outubro 25, 2009 · Deixe um comentário

Hoje, a noite não esperou o Sol se afogar

e teceu a sua cama sobre o teu corpo

esquinas insinuantes se enroscaram nos postes

do abraço, sombras se agitaram

nossos olhares ofereceram cômodos no teto

os não-pensamentos foram bons vizinhos

não discutiram com o nosso sangue

as horas transloucadas se agarraram

e sei que você também escutou

a noite em frenesi sussurrado

quando os nossos braços

despencaram sobre o nada

engolindo o silêncio

e nossas línguas

se desmancharam feito água

sob contínuos flashes de absinto.

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O Cheiro Dos Passos

Outubro 20, 2009 · 1 Comentário

Página em branco

Bocas sem cordas

Verbos-espectros

Violinos cerrados

 

Nem todos os passos

São para se escutar

[deixam o cheiro]

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Girassol

Outubro 17, 2009 · 3 Comentários

La danza de los amantes

Se, algum dia, você me olhar

Num girassol d e l i r a n t e

Não se espante

Quando no espelho encontrar

Bolas de sóis pelo seu corpo

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Sonhos

Outubro 15, 2009 · Deixe um comentário

As mãos cansadas tateiam nos lençóis

Um pouco de voz da noite

As nuvens que passam sob meus olhos fechados

Observam o rio que toca o calcanhar dos meus sonhos

A luz da fresta do ontem

Descobre o rosto escondido pelo nó

Enquanto o tempo, descosturando os meus cabelos

Dança com meu peito

Embalado pelo sopro gentil de uma janela rara.

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Sonhos Modernos

Outubro 13, 2009 · 2 Comentários

Teclados silenciosos riscam a tela pálida

Confinado entre paredes, o relógio vigilante não vacila no passo

Roupas desfilam pelos corredores

Enquanto a zeladora recolhe os excrementos do trabalho

Doces sonhos não ocorrem durante o dia

Ocorrem durante dias de Sol

De braços abertos os ponteiros marcam o oito

Horas, sonhos, torpores

Vidas agarradas às pernas das mesas da sala de trabalho

Copulam com as letras perdidas nos documentos

À medida que peregrinam lentamente para a podridão

Doces sonhos modernos festejam dias de morte

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