A Montanha de Flamas
A montanha cheia de velas acesas aguarda o abraço das correntes de ar desfilando eternidade: algumas vidas são derretidas por inteiro, outras ficam pela metade. Próximo do topo estão acesas poucas, na base persiste a boca incendiária.
Depois do corpo apagado o que escapa? A cera rende mais vigor à montanha, a fumaça é tragada mansamente, o fogo é reaceso noutro cenário.
Eclodimos na crosta da montanha como espirais de pavios vacilantes. Estamos acesos sobre o corpo derretido das nossas próprias reminiscências, cera consumindo cera, vida acesa sobre vida, pavio queimando em ciclos sem fim.
Gostaria de saber sobre qual montume de cera minha vela, agora, está acesa.
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Reminiscências:
Willy Barp, pessoa que tive o prazer de conhecer através do blog Pena Negra, recentemente trouxe a sua obra Reminiscências para a apreciação pública. O livro traz uma série de textos em prosa e poesia sobre cativantes temáticas que tocam o universal e, pela peculiaridade das letras de Barp, merece toda a atenção.
Em breve farei questão de resenhar e destacar os aspectos que mais me empolgaram na sua obra. Por ora, deixo o link para que os interessados aproveitem a leitura: http://www.4shared.com/file/157888406/b9246813/Reminiscncias.html

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Lâmina Fatigada
A lâmina fatigada adormece sobre a mesa. Os acordes quebrados de uma voz inquisidora ainda ressoam pelos cantos da casa. Meu corpo desacordado sobre digitais em branco é a única testemunha do carcereiro dos sonhos.
Lá fora
Quando o vento rufando seus braços infinitos bateu nas janelas e portas da casa, todos já sabiam que o desfile dos seus ecos arlequinos não era signo do acaso. Todos quem? É isso o que você me pergunta? Todos, meu caro. As faces encravadas sob a minha retina, as vozes consumidas pelos pulmões prematuramente queimados enquanto dormiam, os passos atrofiados sob meus lençóis do meio-dia.
Aonde estou?
Não faço idéia alguma de onde estou. Estou em casa, estou num quarto, estou no grito roto da contradição ou em algum outro dilema disfarçadamente resolvido. Quem sou? Sou o ausente do qual se suspeita na chuva da tarde de verão, as teclas do piano empoeirado atrás da última parede, o choro do infante morto que ninguém ouviu, nem leu, nem se importou, mas que ainda assim continua ecoando. Sou fruto da genealogia espalhada nos cânticos folclóricos, da remota primeira fresta aberta sobre o velho rio sem fundo, do início que se engoliu logo no início de sua existência sem início.
O carcereiro
Hoje quando o meu corpo foi nocauteado estava mais uma vez levantando da minha cama em direção a rua. Uma lâmina, subitamente, foi cravada no meio das minhas costelas, atravessou o meu corpo e continou seu percurso de mutilação rua afora. Minha dor lancinante, minha língua paralisada dentro da boca e meus braços inertes arrastando mãos a espreitarem os passos cambaleantes, não foram suficientes para satisfazer a morbidez do carcereiro e ele continuou sua tentativa de rasgar as minhas falas jogadas contra o espelho, engolir os quartos da minha casa e cobrir de entulhos as frestas das minhas portas.
***
Com um disfarçado sorriso de canto de boca, sabia que a sua dose de sadismo logo teria fim. O cárcere que reside nos pés do carcereiro o torna, a cada passo, mais debilitado. Destino de carcereiro é ser faca cega, detém tanta empáfia na mutilação alheia que esquece de seu gume, cada vez mais engolido pelas marés de sonhos da noite humana.
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Página em branco é sutil respiração de ecos, querendo ser revividos. Andarilho adormecido em estrada sem chão. Chão estendido sobre boca sem voz. Voz de escritor nunca escrita por inteiro.
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Os ponteiros do relógio se abraçaram
a noite gozou sob os seus sussurros amorosos
os ecos se soltaram das cavernas
os grilos cessaram
seus violinos cerrados
as portas esfomeadas
engoliram paredes
e o silêncio, satisfeito
atirou-se sobre o nada
quando o meu pulso
em êxtase
penetrou em minha outra imagem
desfilante
de linhas desencontradas.
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Hoje, a noite não esperou o Sol se afogar
e teceu a sua cama sobre o teu corpo
esquinas insinuantes se enroscaram nos postes
do abraço, sombras se agitaram
nossos olhares ofereceram cômodos no teto
os não-pensamentos foram bons vizinhos
não discutiram com o nosso sangue
as horas transloucadas se agarraram
e sei que você também escutou
a noite em frenesi sussurrado
quando os nossos braços
despencaram sobre o nada
engolindo o silêncio
e nossas línguas
se desmancharam feito água
sob contínuos flashes de absinto.
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Página em branco
Bocas sem cordas
Verbos-espectros
Violinos cerrados
Nem todos os passos
São para se escutar
[deixam o cheiro]
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Se, algum dia, você me olhar
Num girassol d e l i r a n t e
Não se espante
Quando no espelho encontrar
Bolas de sóis pelo seu corpo
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As mãos cansadas tateiam nos lençóis
Um pouco de voz da noite
As nuvens que passam sob meus olhos fechados
Observam o rio que toca o calcanhar dos meus sonhos
A luz da fresta do ontem
Descobre o rosto escondido pelo nó
Enquanto o tempo, descosturando os meus cabelos
Dança com meu peito
Embalado pelo sopro gentil de uma janela rara.
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Teclados silenciosos riscam a tela pálida
Confinado entre paredes, o relógio vigilante não vacila no passo
Roupas desfilam pelos corredores
Enquanto a zeladora recolhe os excrementos do trabalho
Doces sonhos não ocorrem durante o dia
Ocorrem durante dias de Sol
De braços abertos os ponteiros marcam o oito
Horas, sonhos, torpores
Vidas agarradas às pernas das mesas da sala de trabalho
Copulam com as letras perdidas nos documentos
À medida que peregrinam lentamente para a podridão
Doces sonhos modernos festejam dias de morte
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